Amizades se reencontram depois de anos sem constrangimentos.
Ela pode esperar por muito tempo, permanecendo viva através dos anos e das décadas em estado latente. Então do nada você se lembra daquela pessoa que conheceu no passado e que mesmo depois de uma vida afastados você não a esqueceu, ao contrário, faz questão de recordar os tempos de convivência, mesmo não entendendo muito bem porque mantém, tão vivo e cristalino, aquele sentimento. Então um dia você se pergunta se não é exagero seu, e acha que está fantasiando: – Imagina! Ela nem mesmo deve lembrar que existo, e fico eu aqui reeditando essas memórias sem propósito. – Até que um dia, através de um conhecido em comum, você reencontra sua amizade. E meio sem jeito sonda querendo saber se ela também pensava em você, mesmo que de vez em quando. Mas você não pergunta, escreve um texto que conta uma passagem lá do passado querendo testar e saber se ao menos ela se lembra. Suspense, frio na barriga! Então você recebe uma “DDP” (Discagem Direta do Passado). Você atende, e a voz do outro lado continua a mesma, surpresa e feliz, tentando meio que disfarçar a emoção do reencontro. Vocês conversam como se apenas poucos dias e não tantos anos houvessem se passado. Ah que felicidade! O sentimento é recíproco e verdadeiro. E vem a certeza de que ter guardado, com tanto carinho, aquelas boas lembranças por tantos anos, talvez tenha sido uma das coisas mais acertadas que fez em sua vida. E você se regozija por dentro. É tomado por um sentimento de bem querer correspondido que te catapulta para lua junto com sua auto-estima que ainda quer ir além, às estrelas.
Esse é o inestimável valor de uma amizade, que vale muito mais do que uma paixão, que até pode existir sem o amor, o mesmo que sempre acompanhará dois amigos verdadeiros.
Eduardo Bittencourt
terça-feira, 21 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Amor Autônomo
“Amores serão sempre amáveis”, disse Chico em mais uma de suas frases indiscutíveis. Mas essa confere autonomia ao amor. Tornando-o independente das figuras do ser amado e do que ama. Deve estar ai a explicação de não escolhermos nossos amores. Tudo se esclarece então, pois é ele quem elege dentre esse turbilhão de vontades, carências, ansiedades, descasos, descontroles e tudo mais, os seus afortunados. Não adianta procurá-lo, as buscas serão desperdício de boa intenção, e caso pense que o encontrou, estará vivendo uma simples ilusão causada por sua esperança de felicidade.
Trato o amor como sendo uma categoria especial dentre todos os sentimentos, dotando-lhe de características e poderes que fazem dele o meu divino, o meu inexplicável o deus sol do primitivo que habita em mim e em todos. Tentar entendê-lo pode ser angustiante, pois as respostas nunca são claras, as teorias se alimentam de tantas variáveis que nos perdemos na construção de seus modelos. No entanto quando o vivemos na prática, fica tudo tão simples e claro, não só com relação a ele. Compreendemos tudo. Enxergamos por uma ótica simples todas as questões e não entendemos por que complicamos tanto nossa existência.
Sendo assim vamos abrir as guardas, vencer os medos e deixar o sol entrar. Receba o amor sem distinção, demonstre amor sem vergonha de parecer frágil e quando perceber estará amando e sendo amado pelas pessoas que lhe trarão a felicidade. Paixões seguidas de amor, ou vice versa, amor entre pais e filhos, irmãos, parentes e amigos acontecerão em profusão aumentando seus momentos de felicidade e plenitude. Essa é nossa missão e obrigação. Buscar a felicidade e aceitar as tristezas sabendo que serão passageiras. Acredito que a fórmula infalível para infelicidade seja querer ser feliz o tempo todo.
Sendo assim, que o amor esteja convosco.
Trato o amor como sendo uma categoria especial dentre todos os sentimentos, dotando-lhe de características e poderes que fazem dele o meu divino, o meu inexplicável o deus sol do primitivo que habita em mim e em todos. Tentar entendê-lo pode ser angustiante, pois as respostas nunca são claras, as teorias se alimentam de tantas variáveis que nos perdemos na construção de seus modelos. No entanto quando o vivemos na prática, fica tudo tão simples e claro, não só com relação a ele. Compreendemos tudo. Enxergamos por uma ótica simples todas as questões e não entendemos por que complicamos tanto nossa existência.
Sendo assim vamos abrir as guardas, vencer os medos e deixar o sol entrar. Receba o amor sem distinção, demonstre amor sem vergonha de parecer frágil e quando perceber estará amando e sendo amado pelas pessoas que lhe trarão a felicidade. Paixões seguidas de amor, ou vice versa, amor entre pais e filhos, irmãos, parentes e amigos acontecerão em profusão aumentando seus momentos de felicidade e plenitude. Essa é nossa missão e obrigação. Buscar a felicidade e aceitar as tristezas sabendo que serão passageiras. Acredito que a fórmula infalível para infelicidade seja querer ser feliz o tempo todo.
Sendo assim, que o amor esteja convosco.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Estrela da Manhã
– Eduardo! Acorda! Fiz xixi na cama. Tá tudo molhado.
Ainda sonolento achei graça da Claudia. Nunca acordo de mau humor. Mas ao se levantar, percebemos que o xixi não parava de escorrer. Foi então que caiu a ficha. Não era xixi e sim minha filha querendo nascer. Já estava amanhecendo e ela não podia perder sequer mais um dia presa àquela rotina, totalmente sem opção, que vinha levando nos últimos nove meses. A bolsa havia estourado e finalmente a boa hora chegado. Atrapalhações e nervosismos compreensíveis pela inexperiência se seguiram até que, com a sacola da mamãe, a do neném e mais a carteirinha do plano de saúde em mãos, partimos para um dos dias mais felizes de nossa história.
Morávamos, graças à generosidade e ao desejo de união familiar do meu sogro, em um cenário espetacular. Como pano de fundo um espelhado lago por onde o olhar flutuava até chegar às colinas que definiam o horizonte. Mudavam de cor segundo a vontade da hora e do dia. Naquele momento se vestiam de tons arroxeados tecidos pela luz tímida do quase amanhecer que logo iria acontecer, assim como a chegada da Débora, que a princípio se chamaria Bárbara, o que também nunca deixou de ser. O céu, que no alto ainda ostentava o seu vestido de noite já mostrava, por debaixo de sua barra, os rosas e laranjas das roupas que escolhera para aquele dia. E bem no meio daquele encontro colorido brilhava ela, a Estrela da Manhã, que uns chamam de Vésper, outros de Estrela D’alva, mas que na verdade não é estrela e sim Venus, deusa do amor e da beleza que veio anunciar, da mesma forma que um astro irmão um dia marcou a chegada de outro ser iluminado, o nascimento da minha filha, minha vida, meu orgulho e meu amor sem fim.
E então nasceu o sol.
Eduardo Bittencourt
Ainda sonolento achei graça da Claudia. Nunca acordo de mau humor. Mas ao se levantar, percebemos que o xixi não parava de escorrer. Foi então que caiu a ficha. Não era xixi e sim minha filha querendo nascer. Já estava amanhecendo e ela não podia perder sequer mais um dia presa àquela rotina, totalmente sem opção, que vinha levando nos últimos nove meses. A bolsa havia estourado e finalmente a boa hora chegado. Atrapalhações e nervosismos compreensíveis pela inexperiência se seguiram até que, com a sacola da mamãe, a do neném e mais a carteirinha do plano de saúde em mãos, partimos para um dos dias mais felizes de nossa história.
Morávamos, graças à generosidade e ao desejo de união familiar do meu sogro, em um cenário espetacular. Como pano de fundo um espelhado lago por onde o olhar flutuava até chegar às colinas que definiam o horizonte. Mudavam de cor segundo a vontade da hora e do dia. Naquele momento se vestiam de tons arroxeados tecidos pela luz tímida do quase amanhecer que logo iria acontecer, assim como a chegada da Débora, que a princípio se chamaria Bárbara, o que também nunca deixou de ser. O céu, que no alto ainda ostentava o seu vestido de noite já mostrava, por debaixo de sua barra, os rosas e laranjas das roupas que escolhera para aquele dia. E bem no meio daquele encontro colorido brilhava ela, a Estrela da Manhã, que uns chamam de Vésper, outros de Estrela D’alva, mas que na verdade não é estrela e sim Venus, deusa do amor e da beleza que veio anunciar, da mesma forma que um astro irmão um dia marcou a chegada de outro ser iluminado, o nascimento da minha filha, minha vida, meu orgulho e meu amor sem fim.
E então nasceu o sol.
Eduardo Bittencourt
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Pintas para mim
Pinta preta no peito, vermelha na coxa
Laranja e marrom na alma de onça
Que se esconde por debaixo da roupa
Estampada na trama das mais íntimas
Camuflada a espreita do amor distraído
Que hipnotizado é traído por sua retina
E o caçador vira presa da felina, que não é ferina
É feminina e me arranha e se assanha
Ronrona, se roça, vira gata mansa e se acanha
Boca rosa pintada de vermelho me beija
Cabelo transmutado em ouro me enfeitiça
E o azul vidrado do meu olho a pinta como uma tela única
Que o artista não vende, não dá e não troca por nada
Eduardo Bittencourt
Laranja e marrom na alma de onça
Que se esconde por debaixo da roupa
Estampada na trama das mais íntimas
Camuflada a espreita do amor distraído
Que hipnotizado é traído por sua retina
E o caçador vira presa da felina, que não é ferina
É feminina e me arranha e se assanha
Ronrona, se roça, vira gata mansa e se acanha
Boca rosa pintada de vermelho me beija
Cabelo transmutado em ouro me enfeitiça
E o azul vidrado do meu olho a pinta como uma tela única
Que o artista não vende, não dá e não troca por nada
Eduardo Bittencourt
domingo, 17 de maio de 2009
Alma Restaurada
“Ainda é cedo amor
Mal começastes a entender a vida”...
Ao se ver procurando a letra da música que ela cantava com a ternura de uma canção de ninar, surpreso se viu apaixonado. Já fazia tanto tempo que lhe pareceu como uma nova primeira vez. Após a separação, oito anos e três relações haviam passado. Simplesmente passado. Seus namoros eram guardados como amizades e gratas lembranças. Era o máximo permitido. De fato sentia, sem admitir, ter perdido o direito ao amor. Os muros de proteção eram altos e frios. No entanto, alheia as suas convicções, uma apelação contra sua sentença de morte tramitava. Havia deixado de lado quase tudo, porém o prazer em se encantar com o novo vivia. Adorava conhecer gente. E ocupado em proteger-se do amor, descuidou-se subestimando sua habilidade em retirar armaduras e despir as pessoas até a alma.
Em meio à tempestade de trabalho que assolava a empresa, ela era o seu farol com um carisma encantador. O real motivo dele permanecer ali. Hora ela explodia em autenticidade e alegria, hora implodia numa fragilidade repleta de carências ancestrais. Ele passou a observá-la querendo entender aquele jeito adorável e controverso. Mas enquanto a descobria não percebia que era ele quem se despia. E bem devagar, numa demolição que mais parecia uma construção às avessas, a cada pedra retirada, o muro ficava menor. Renasciam os sentimentos carregados de bem querer. Carinho, cuidados, preocupação. Afagos em seus cabelos e encontros entre mãos delatavam seu afeto e desejo. No entanto aquele amor não pôde acontecer. E talvez não fosse mesmo sua missão acontecer. Mas existiu e isso basta. Cumpriu sua função e devolveu a ele a coragem de amar, de se apaixonar. Ela havia restaurado sua alma e ressuscitado seu direito a felicidade.
Talvez ela não perceba a importância do seu despretensioso papel e continue negando a capacidade humana de doar sem esperar em troca. Distraída, continuará realizando seus encantamentos e espalhando vida por onde estiver. Isso é compaixão verdadeira. Ele sempre será agradecido e, seu bem querer e amizade, eternos.
Eduardo Bittencourt
Mal começastes a entender a vida”...
Ao se ver procurando a letra da música que ela cantava com a ternura de uma canção de ninar, surpreso se viu apaixonado. Já fazia tanto tempo que lhe pareceu como uma nova primeira vez. Após a separação, oito anos e três relações haviam passado. Simplesmente passado. Seus namoros eram guardados como amizades e gratas lembranças. Era o máximo permitido. De fato sentia, sem admitir, ter perdido o direito ao amor. Os muros de proteção eram altos e frios. No entanto, alheia as suas convicções, uma apelação contra sua sentença de morte tramitava. Havia deixado de lado quase tudo, porém o prazer em se encantar com o novo vivia. Adorava conhecer gente. E ocupado em proteger-se do amor, descuidou-se subestimando sua habilidade em retirar armaduras e despir as pessoas até a alma.
Em meio à tempestade de trabalho que assolava a empresa, ela era o seu farol com um carisma encantador. O real motivo dele permanecer ali. Hora ela explodia em autenticidade e alegria, hora implodia numa fragilidade repleta de carências ancestrais. Ele passou a observá-la querendo entender aquele jeito adorável e controverso. Mas enquanto a descobria não percebia que era ele quem se despia. E bem devagar, numa demolição que mais parecia uma construção às avessas, a cada pedra retirada, o muro ficava menor. Renasciam os sentimentos carregados de bem querer. Carinho, cuidados, preocupação. Afagos em seus cabelos e encontros entre mãos delatavam seu afeto e desejo. No entanto aquele amor não pôde acontecer. E talvez não fosse mesmo sua missão acontecer. Mas existiu e isso basta. Cumpriu sua função e devolveu a ele a coragem de amar, de se apaixonar. Ela havia restaurado sua alma e ressuscitado seu direito a felicidade.
Talvez ela não perceba a importância do seu despretensioso papel e continue negando a capacidade humana de doar sem esperar em troca. Distraída, continuará realizando seus encantamentos e espalhando vida por onde estiver. Isso é compaixão verdadeira. Ele sempre será agradecido e, seu bem querer e amizade, eternos.
Eduardo Bittencourt
quinta-feira, 14 de maio de 2009
A Partícula de Deus
Ali mesmo da entrada do bar, numa simples cruzada de olhar, o visgo aconteceu. Sorrisos surpresos se cumprimentaram. Dois passos à frente e sua progressão era interrompida pela incontrolável vontade de se voltar e olhar. Novamente o sorriso e a involuntária mudança de direção, de planos para a noite e sabe-se mais do que. Quatro passos à frente e dois beijinhos no rosto enquanto ela dançava. Dois passos para trás com a atenção em seus olhos. Suas bocas se entreabrem em sincronismo. Dois passos para frente e o beijo. Menos de dois minutos, ou menos de um, não importa. O tempo se distorce frente a imensas forças gravitacionais. Aquilo não era um encontro casual e paixão a primeira vista seria descrição discreta demais para sobreviver àquela intensidade. Prefiro metáforas astronômicas para tentar dimensionar o que acontecia ali. Mas não seria um buraco negro sugando toda uma galáxia ou um sistema solar duplo entrando em colapso com a inevitável conjunção de suas estrelas. O fenômeno não tinha viés cataclísmico, apontava para criação e não para destruição. Talvez devesse descartar o infinitamente grande e buscar uma explicação no indescritivelmente pequeno. Era coisa teorizada mas não comprovada em experimento. Fenômeno que se sabe da existência mas nunca observado. Talvez, se o ocorrido ali pudesse ser assistido, mensurado e avaliado pela ciência, o bilionário e gigantesco acelerador de partículas ficasse obsoleto. Simplesmente deixaram de existir para nossa realidade. Vibravam numa freqüência imperceptível para os demais observadores. Como se daquela colisão inevitável derivasse a partícula de Deus e que como no primeiro segundo do gênesis tudo houvesse sido criado. Tudo. Massa, luz, energia e tempo. Nascia um novo universo, e uma bifurcação na linha das suas vidas aconteceu. Para nós, que continuamos aqui, observamos a história daquele casal que vive sua grande paixão dentro do que nos é compreensível. Mas lá, naquele momento, um novo casal, derivado do que conhecemos, furou o espaço e o tempo passando a habitar uma realidade alheia aos nossos sentidos. Vivem seu amor no inimaginável de outra dimensão.
Eduardo Bittencourt
Eduardo Bittencourt
Almas quase gêmeas. Ele de gêmeos. Ela de câncer.
Duas da manhã, e nada do sono acalmar
A voz soa nos ouvidos como eco distante
Perdido anos na memória das coisas de ainda infância
Familiar conversa entre dois desconhecidos
Flui por emoções irmãs na importância
Nascidas na cabeceira do rio puro da serra
Bifurcadas sem sentir escorrem por outras instâncias
Seguem limpas e chegam ao mesmo mar
Se reencontram e se reconhecem como num conto
Se misturam e trocam o calor, o odor e o amor aprendidos
Continuam puras como quando crianças
E quanta elegância têm em seu falar
Eduardo Bittencourt
A voz soa nos ouvidos como eco distante
Perdido anos na memória das coisas de ainda infância
Familiar conversa entre dois desconhecidos
Flui por emoções irmãs na importância
Nascidas na cabeceira do rio puro da serra
Bifurcadas sem sentir escorrem por outras instâncias
Seguem limpas e chegam ao mesmo mar
Se reencontram e se reconhecem como num conto
Se misturam e trocam o calor, o odor e o amor aprendidos
Continuam puras como quando crianças
E quanta elegância têm em seu falar
Eduardo Bittencourt
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Um hotel, um beijo e muitos carnavais.
– É esse? É esse? É esse? – a mão que vendava os seus olhos pressionou seu rosto como combinado.
– É!!!!
– Pêra, uva, maçã, salada mista?
– Salada mista!!!
Seus olhos se abriram e lá estava ela, linda e apavorada. Sua primeira paixão. O combinado funcionou. Aliviado, suspirou afastando a ansiedade e o medo de ser enganado pelo cúmplice e rival, metido a esperto, e que não disfarçava o interesse pela mesma menina. O alívio e a felicidade logo fugiram dali cedendo a vez ao pânico do primeiro beijo. Sua veia teatral, que naturalmente o acompanhava, escondeu de todos, e principalmente dela, a sua insegurança. E como um galã de cinema, segurou sua mão que tremia e suava. Estava paralisada, quase que colada à ponta da mesa de pingue-pongue onde sentava. A mesma de tantas tardes e noites descontraídas, onde construíam uma amizade ingênua de crianças de nove ou dez anos. Mas aquilo não era mais um jogo ou brincadeira, e muito menos inocente. Ela não conseguia disfarçar seu medo e a tenaz curiosidade ampliada pelo afeto a impedia de sair correndo dali. Ele chegou mais perto de seu rosto e os olhos arregalados dela foram cedendo e se rendendo ao inevitável. Sentia o cheiro, a respiração. “Selinho” não podia, eram as regras indiscutíveis e aceitas por quem quisesse participar do jogo. Não era brincadeira para criancinha como pique-tá ou pique-esconde. O beijo tinha que ser com a boca aberta e só acabava depois que a contagem até dez, pausadamente marcada pelos demais jogadores, terminasse. Tensão, emoção e desejo além da conta para duas almas tão jovens e inexperientes. Dali não teria volta e agora eram os olhos dele que se entregavam. O hálito e a respiração eram uma sensação tão forte, que mesmo antes das bocas se tocarem faziam correntes elétricas e arrepios percorrem pelo corpo. Uma instintiva passada de língua pelos lábios e o primeiro toque. Muito suave, de levinho mesmo, e a sensação de tocar outra boca, também molhada e essa não ser uma boca qualquer, e sim a boca há muito esperada, transformou a emoção daquele primeiro beijo em um capítulo de sua história.
Eles, apesar de conviverem e se encontrarem por alguns anos durante suas juventudes, e até mesmo terem ficado juntos depois em algum outro carnaval naquele mesmo hotel, nunca chegaram a namorar. Mas isso não importa, o que importa é saber que essa lembrança que permanece viva por mais de 30 anos, nunca se apagará. E ter a certeza de que o primeiro beijo foi verdadeiro e que será, para sempre, lembrado com muito carinho.
Eduardo Bittencourt
– É!!!!
– Pêra, uva, maçã, salada mista?
– Salada mista!!!
Seus olhos se abriram e lá estava ela, linda e apavorada. Sua primeira paixão. O combinado funcionou. Aliviado, suspirou afastando a ansiedade e o medo de ser enganado pelo cúmplice e rival, metido a esperto, e que não disfarçava o interesse pela mesma menina. O alívio e a felicidade logo fugiram dali cedendo a vez ao pânico do primeiro beijo. Sua veia teatral, que naturalmente o acompanhava, escondeu de todos, e principalmente dela, a sua insegurança. E como um galã de cinema, segurou sua mão que tremia e suava. Estava paralisada, quase que colada à ponta da mesa de pingue-pongue onde sentava. A mesma de tantas tardes e noites descontraídas, onde construíam uma amizade ingênua de crianças de nove ou dez anos. Mas aquilo não era mais um jogo ou brincadeira, e muito menos inocente. Ela não conseguia disfarçar seu medo e a tenaz curiosidade ampliada pelo afeto a impedia de sair correndo dali. Ele chegou mais perto de seu rosto e os olhos arregalados dela foram cedendo e se rendendo ao inevitável. Sentia o cheiro, a respiração. “Selinho” não podia, eram as regras indiscutíveis e aceitas por quem quisesse participar do jogo. Não era brincadeira para criancinha como pique-tá ou pique-esconde. O beijo tinha que ser com a boca aberta e só acabava depois que a contagem até dez, pausadamente marcada pelos demais jogadores, terminasse. Tensão, emoção e desejo além da conta para duas almas tão jovens e inexperientes. Dali não teria volta e agora eram os olhos dele que se entregavam. O hálito e a respiração eram uma sensação tão forte, que mesmo antes das bocas se tocarem faziam correntes elétricas e arrepios percorrem pelo corpo. Uma instintiva passada de língua pelos lábios e o primeiro toque. Muito suave, de levinho mesmo, e a sensação de tocar outra boca, também molhada e essa não ser uma boca qualquer, e sim a boca há muito esperada, transformou a emoção daquele primeiro beijo em um capítulo de sua história.
Eles, apesar de conviverem e se encontrarem por alguns anos durante suas juventudes, e até mesmo terem ficado juntos depois em algum outro carnaval naquele mesmo hotel, nunca chegaram a namorar. Mas isso não importa, o que importa é saber que essa lembrança que permanece viva por mais de 30 anos, nunca se apagará. E ter a certeza de que o primeiro beijo foi verdadeiro e que será, para sempre, lembrado com muito carinho.
Eduardo Bittencourt
domingo, 1 de março de 2009
Pretas, doces, suculentas e para todos
E o homem com a enxada cavando a terra para que se tornasse verdadeira a tal previsão do que me parecia uma história sem fim, escutou:
– Quantos anos vô?
– De oito a dez anos meu filho. Com muita sorte sete.
– Mais vai demorar muito vô! – Eram mais anos do que a minha existência.
– Ainda bem que já estamos plantando. Assim, só vai demorar o tempo que precisar, nem uma safra a mais e nem uma menos para a primeira floração e depois o prazer de chupar as jabuticabas.
Tais palavras eram sem sentido para aquele homem que só pensava na profundidade certa do buraco, na mistura das três terras mais o adubo para que atingisse o sucesso daquele ano a menos na espera do que para mim era a própria eternidade. Sua única preocupação naquele momento era o seu trabalho. E assim, uma a uma, desenhando um círculo entorno do que anos depois, bem mais de sete ou oito, seria um pequeno lago cheio de tilápias, foram cuidadosamente plantadas as seis jabuticabeiras que formariam, já com o lago e a nova casa construída, o cenário em outro tempo dessa mesma história.
E por toda minha infância, vi meu avô e seus cordatos ajudantes plantarem centenas de árvores, normalmente frutíferas, suas paixões declaradas. Mas nunca se esquecendo das ornamentais sempre bem locadas e organizadas pelo porte, cor e época das floradas. Havia também as odoríferas, é claro. E nem mesmo aquelas que não tinham boa aparência, bons frutos ou bom cheiro, como o assa-peixe, eram deixadas de lado:
– Vô! Para que serve esse mato grande?
– Chama-se assa-peixe. Para nós de nada serve, mas serve de alimento para dezenas de espécies de pássaros que voarão para cá as centenas atraídas por suas sementes lenhosas e ricas em óleos. Parece que eles adoram. De suas flores as abelhas fazem um mel que é muito bom para tosse. E não é mato grande Eduardo, esse tipo de planta se chama arbusto.
– Vô! O assa-peixe – nunca esqueci o nome de nenhuma planta, arbusto ou árvore que me tenha sido apresentado – serve pra alguma coisa sim.
– Serve sim meu neto, tudo serve para alguma coisa.
Ele sempre soube disso, era racional e vaidoso demais para deixar escapar esse parágrafo em sua criação. Não queria dificultar meu aprendizado com tantas informações. Eu era uma criança. Dizia que só se aprende quando pronto para entender, fora isso é decorar e repetir como papagaio. Era também generoso, compreensivo e um educador nato como meu bisavô que viveu para educar como professor e diretor de bons colégios. Voltando ao gênesis, estava sempre pensando em atrair o maior número possível de animais, exceto as formigas e as cobras peçonhentas, pois mesmo sabendo de seus papéis ecológicos, nunca correria o risco de perder alguém amado para uma jararaca. E jamais permitiria que as formigas atrasassem o crescimento de seu pequeno universo em expansão. Afinal aquela era a sua concepção de paraíso, o acaso que criasse o dele com bem entendesse. Era também um cético.
– Maria! Toque o sino. Chame os meninos para o almoço.
Ela sempre chamava cinco ou dez minutos antes, para que cada um pudesse terminar ou ajeitar o que estivesse fazendo antes de ir à mesa. Nunca precisou chamar duas vezes. Minha avó, ao seu modo, era sábia como meu avô. Firme, mas nunca autoritária. Doce sem ser melada, assim como suas compotas de frutas que existiam em abundância nos armários e no aparador da sala de jantar, onde se encontravam todas as delícias que se espera encontrar na casa de uma avó do seu tempo, e as compotas, o ano todo, graças à outra sabedoria.
Sentávamos todos em uma grande mesa que meu pai havia comprado da sogra de meu irmão mais velho, já falecido há época. Ela passava por dificuldades e precisou vendê-la. Comprou afirmando um excelente negócio. Mas todos sabiam que tinha mais haver com o tamanho de seu coração e não com o da necessidade de comprá-la. Bendito coração gigante, pois em sua generosidade fez com que gratidão abençoasse aquela mesa que serviu de base às infinitas refeições felizes com uma união familiar rara. Feijão, arroz, bolinho de aipim da tia Clélia, pernil de porco assado na panela. Era uma comida simples no cardápio, mas com a complexidade dos anos de tradição passada por gerações de uma família amante da boa comida. Não havia quem não enlouquecesse com aquelas preciosidades. Mas eu, naquele dia, não tinha muito apetite, não o de comida quente. Só pensava nelas, pois talvez quinze anos houvessem passado e o milagre do tempo havia se dado. As mudas, que levariam uma eternidade para crescer e oferecer as desejadas frutinhas, ignoraram minha ansiedade e se arvoravam a dez metros de altura. Estavam pretas de jabuticabas maduras, com as cascas bem fininhas. Almocei menos do que seria o meu normal. Esperei que todos terminassem, mas não consegui ficar para a conversa à mesa, que muitas vezes se estendia até hora do jantar, entremeada por histórias, pausadamente desenroladas pela deliciosa voz de minha tia. Pedi licença e fui me entregar a elas.
No chão uma forração de recatadas violetas brancas. Só podíamos aproveitar de sua beleza nos agachando e procurando, a delicada flor, por debaixo da saia de suas folhas redondas. Era uma boa forração, gostava das sombras sob as fruteiras onde a grama não vingava e não atraia as indesejadas formigas e cobras por ser uma espécie exótica. Era fácil subir nas jabuticabeiras, o arquiteto daquele éden na verdade era engenheiro, topógrafo e botânico por paixão. Havia podado os galhos para que fossem confortáveis para subir. Estava onde queria. Bem acomodado em um galho alto, perto das graúdas, já que nos galhos mais baixos só restavam as miúdas que volta e meia eram golpeadas pelas patas de Samanta, uma cadela companheira que também as adorava. Já no fim do banquete e afirmando pela quinta vez para mim mesmo que seriam as dez últimas (frugalidade não fazia parte de meu vocabulário naqueles tempos), pousou na mesma árvore um bando de saíras-sete-cores, elas são lindas, pequenas e como o nome diz, coloridas. E sem o menor pudor participaram da orgia. Estavam ao alcance de minha mão e sem nenhum receio. Comer já não era importante ou qualquer prazer que meus sentidos pudessem decifrar não arranharia a paz e a felicidade plena que me envolvia. Nirvana, iluminação, ou chamem como quiser, só poderia ser se não aquilo, o mais próximo do que minha emoção poderia aguentar. Fosse o acaso, meu avô ou Deus o responsável, também não faria diferença. Sentia, pela primeira vez, fazer parte de um mundo que realmente desejava.
E ali fiquei, por algum tempo, depois delas partirem sem se despedir. Agradeço ao homem com a enxada, aos meus avós, ao tempo e a capacidade que temos de nos emocionar.
Eduardo Bittencourt
– Quantos anos vô?
– De oito a dez anos meu filho. Com muita sorte sete.
– Mais vai demorar muito vô! – Eram mais anos do que a minha existência.
– Ainda bem que já estamos plantando. Assim, só vai demorar o tempo que precisar, nem uma safra a mais e nem uma menos para a primeira floração e depois o prazer de chupar as jabuticabas.
Tais palavras eram sem sentido para aquele homem que só pensava na profundidade certa do buraco, na mistura das três terras mais o adubo para que atingisse o sucesso daquele ano a menos na espera do que para mim era a própria eternidade. Sua única preocupação naquele momento era o seu trabalho. E assim, uma a uma, desenhando um círculo entorno do que anos depois, bem mais de sete ou oito, seria um pequeno lago cheio de tilápias, foram cuidadosamente plantadas as seis jabuticabeiras que formariam, já com o lago e a nova casa construída, o cenário em outro tempo dessa mesma história.
E por toda minha infância, vi meu avô e seus cordatos ajudantes plantarem centenas de árvores, normalmente frutíferas, suas paixões declaradas. Mas nunca se esquecendo das ornamentais sempre bem locadas e organizadas pelo porte, cor e época das floradas. Havia também as odoríferas, é claro. E nem mesmo aquelas que não tinham boa aparência, bons frutos ou bom cheiro, como o assa-peixe, eram deixadas de lado:
– Vô! Para que serve esse mato grande?
– Chama-se assa-peixe. Para nós de nada serve, mas serve de alimento para dezenas de espécies de pássaros que voarão para cá as centenas atraídas por suas sementes lenhosas e ricas em óleos. Parece que eles adoram. De suas flores as abelhas fazem um mel que é muito bom para tosse. E não é mato grande Eduardo, esse tipo de planta se chama arbusto.
– Vô! O assa-peixe – nunca esqueci o nome de nenhuma planta, arbusto ou árvore que me tenha sido apresentado – serve pra alguma coisa sim.
– Serve sim meu neto, tudo serve para alguma coisa.
Ele sempre soube disso, era racional e vaidoso demais para deixar escapar esse parágrafo em sua criação. Não queria dificultar meu aprendizado com tantas informações. Eu era uma criança. Dizia que só se aprende quando pronto para entender, fora isso é decorar e repetir como papagaio. Era também generoso, compreensivo e um educador nato como meu bisavô que viveu para educar como professor e diretor de bons colégios. Voltando ao gênesis, estava sempre pensando em atrair o maior número possível de animais, exceto as formigas e as cobras peçonhentas, pois mesmo sabendo de seus papéis ecológicos, nunca correria o risco de perder alguém amado para uma jararaca. E jamais permitiria que as formigas atrasassem o crescimento de seu pequeno universo em expansão. Afinal aquela era a sua concepção de paraíso, o acaso que criasse o dele com bem entendesse. Era também um cético.
– Maria! Toque o sino. Chame os meninos para o almoço.
Ela sempre chamava cinco ou dez minutos antes, para que cada um pudesse terminar ou ajeitar o que estivesse fazendo antes de ir à mesa. Nunca precisou chamar duas vezes. Minha avó, ao seu modo, era sábia como meu avô. Firme, mas nunca autoritária. Doce sem ser melada, assim como suas compotas de frutas que existiam em abundância nos armários e no aparador da sala de jantar, onde se encontravam todas as delícias que se espera encontrar na casa de uma avó do seu tempo, e as compotas, o ano todo, graças à outra sabedoria.
Sentávamos todos em uma grande mesa que meu pai havia comprado da sogra de meu irmão mais velho, já falecido há época. Ela passava por dificuldades e precisou vendê-la. Comprou afirmando um excelente negócio. Mas todos sabiam que tinha mais haver com o tamanho de seu coração e não com o da necessidade de comprá-la. Bendito coração gigante, pois em sua generosidade fez com que gratidão abençoasse aquela mesa que serviu de base às infinitas refeições felizes com uma união familiar rara. Feijão, arroz, bolinho de aipim da tia Clélia, pernil de porco assado na panela. Era uma comida simples no cardápio, mas com a complexidade dos anos de tradição passada por gerações de uma família amante da boa comida. Não havia quem não enlouquecesse com aquelas preciosidades. Mas eu, naquele dia, não tinha muito apetite, não o de comida quente. Só pensava nelas, pois talvez quinze anos houvessem passado e o milagre do tempo havia se dado. As mudas, que levariam uma eternidade para crescer e oferecer as desejadas frutinhas, ignoraram minha ansiedade e se arvoravam a dez metros de altura. Estavam pretas de jabuticabas maduras, com as cascas bem fininhas. Almocei menos do que seria o meu normal. Esperei que todos terminassem, mas não consegui ficar para a conversa à mesa, que muitas vezes se estendia até hora do jantar, entremeada por histórias, pausadamente desenroladas pela deliciosa voz de minha tia. Pedi licença e fui me entregar a elas.
No chão uma forração de recatadas violetas brancas. Só podíamos aproveitar de sua beleza nos agachando e procurando, a delicada flor, por debaixo da saia de suas folhas redondas. Era uma boa forração, gostava das sombras sob as fruteiras onde a grama não vingava e não atraia as indesejadas formigas e cobras por ser uma espécie exótica. Era fácil subir nas jabuticabeiras, o arquiteto daquele éden na verdade era engenheiro, topógrafo e botânico por paixão. Havia podado os galhos para que fossem confortáveis para subir. Estava onde queria. Bem acomodado em um galho alto, perto das graúdas, já que nos galhos mais baixos só restavam as miúdas que volta e meia eram golpeadas pelas patas de Samanta, uma cadela companheira que também as adorava. Já no fim do banquete e afirmando pela quinta vez para mim mesmo que seriam as dez últimas (frugalidade não fazia parte de meu vocabulário naqueles tempos), pousou na mesma árvore um bando de saíras-sete-cores, elas são lindas, pequenas e como o nome diz, coloridas. E sem o menor pudor participaram da orgia. Estavam ao alcance de minha mão e sem nenhum receio. Comer já não era importante ou qualquer prazer que meus sentidos pudessem decifrar não arranharia a paz e a felicidade plena que me envolvia. Nirvana, iluminação, ou chamem como quiser, só poderia ser se não aquilo, o mais próximo do que minha emoção poderia aguentar. Fosse o acaso, meu avô ou Deus o responsável, também não faria diferença. Sentia, pela primeira vez, fazer parte de um mundo que realmente desejava.
E ali fiquei, por algum tempo, depois delas partirem sem se despedir. Agradeço ao homem com a enxada, aos meus avós, ao tempo e a capacidade que temos de nos emocionar.
Eduardo Bittencourt
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
A fórmula da evolução humana
"Sê bem vinda, ó vida! Eu vou ao encontro pela milionésima vez da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça".
James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem
James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Diversidade
...”Foi assim que aprendi os segredos da diversidade: a vida é feita de diversas trajetórias. Tudo pode acontecer de um jeito ou de outro. Por sistemas diversos e por lógicas paralelas. Cada uma das lógicas aceitas é uma lógica consistente com sua própria visão, completa e coerente em si mesma, indiferente a todas as demais”...
Trecho colhido de “De Amor e Trevas”, Amós Oz; Editora Companhia das Letras. Se um dia conseguir exprimir uma emoção, sensação ou simples arroubo com tanta poesia e clareza de consciência, me acharia digno da condição de mestre.
Leiam esse autor e tenham o prazer de um texto irretocável além de uma imperceptível mas ao mesmo tempo iluminada aula sobre a histórica adversidade entre povos árabes e judeus.
Grato pela atenção,
Eduardo Bittencourt
Trecho colhido de “De Amor e Trevas”, Amós Oz; Editora Companhia das Letras. Se um dia conseguir exprimir uma emoção, sensação ou simples arroubo com tanta poesia e clareza de consciência, me acharia digno da condição de mestre.
Leiam esse autor e tenham o prazer de um texto irretocável além de uma imperceptível mas ao mesmo tempo iluminada aula sobre a histórica adversidade entre povos árabes e judeus.
Grato pela atenção,
Eduardo Bittencourt
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O legado Brasileiro: "Tamo junto e misturado”
Maior do que o futebol, o samba ou qualquer descoberta cientifica que o brasileiro faça, nossa mais rica contribuição à humanidade é, sem duvida, essa pré-disposição a conviver pacificamente dentre a diversidade de cores, credos, origens, gostos e tudo mais que compõe o que chamamos de Brasil.
Somos muito mais do que o celeiro do mundo ou donos de riquezas minerais incalculáveis. Muito mais do que um povo com jogo de cintura para superar as dificuldades práticas da vida. Nossos pensamentos existem e co-existem em um viveiro de pessoas antes de tudo tolerantes, mais que isso, abertas a experimentar e absorver ou não, maneiras diferentes de viver e pensar. O respeito às diferenças predomina. Viveiro no sentido real da palavra, aquele lugar onde se concentram sementes e mudas de espécies a serem espalhadas em áreas maiores quando fortes o suficiente para sobreviverem sozinhas. Tanto quando recebemos ou visitamos o estrangeiro, acabamos deixando um pouco dessa incrível herança que nos foi presenteada. Por isso somos ricos em alegria e sabedoria. O mundo muito tem a aprender conosco para atingir a inteligência do equilíbrio e da paz. E o brasileiro, mesmo que sem saber, despretensiosamente mesmo, vem cumprindo sua vocação. Todos os povos desse grande espetáculo que é o nosso planeta cumprem o seu papel, até mesmo os que alimentam políticas que levam outros a passar fome ou aqueles que nutrem o ódio da intolerância as diferenças. Fora os extremos, passamos por várias outras contribuições, cada uma há seu tempo e oportunidade, mas do fundo de meu sentimento, não acredito que nenhuma delas seja tão relevante e carregada de tantas venturas quanto a nossa.
Portanto, que o samba, o futebol e o jeitinho brasileiro cumpram o seu papel e espalhem para o maior número possível de cabeças pelo mundo o respeito pelas diferenças, a tolerância e a convivência pacífica entre as diversas opções de viver de cada um. Essa é a nossa maior riqueza, o nosso maior presente, o nosso legado de paz para humanidade.
Obrigado,
Eduardo Bittencourt
Somos muito mais do que o celeiro do mundo ou donos de riquezas minerais incalculáveis. Muito mais do que um povo com jogo de cintura para superar as dificuldades práticas da vida. Nossos pensamentos existem e co-existem em um viveiro de pessoas antes de tudo tolerantes, mais que isso, abertas a experimentar e absorver ou não, maneiras diferentes de viver e pensar. O respeito às diferenças predomina. Viveiro no sentido real da palavra, aquele lugar onde se concentram sementes e mudas de espécies a serem espalhadas em áreas maiores quando fortes o suficiente para sobreviverem sozinhas. Tanto quando recebemos ou visitamos o estrangeiro, acabamos deixando um pouco dessa incrível herança que nos foi presenteada. Por isso somos ricos em alegria e sabedoria. O mundo muito tem a aprender conosco para atingir a inteligência do equilíbrio e da paz. E o brasileiro, mesmo que sem saber, despretensiosamente mesmo, vem cumprindo sua vocação. Todos os povos desse grande espetáculo que é o nosso planeta cumprem o seu papel, até mesmo os que alimentam políticas que levam outros a passar fome ou aqueles que nutrem o ódio da intolerância as diferenças. Fora os extremos, passamos por várias outras contribuições, cada uma há seu tempo e oportunidade, mas do fundo de meu sentimento, não acredito que nenhuma delas seja tão relevante e carregada de tantas venturas quanto a nossa.
Portanto, que o samba, o futebol e o jeitinho brasileiro cumpram o seu papel e espalhem para o maior número possível de cabeças pelo mundo o respeito pelas diferenças, a tolerância e a convivência pacífica entre as diversas opções de viver de cada um. Essa é a nossa maior riqueza, o nosso maior presente, o nosso legado de paz para humanidade.
Obrigado,
Eduardo Bittencourt
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Zé Katimba

Saudade, malandragem e bohemia, segundo o próprio biografado, são as palavras síntese de uma história incrível sobre um cara genial. Quando escolhi o detalhe de uma foto feita na Lapa para ilustrar a folha de guarda do livro que tenho a honra, mais do que honra, o puta prazer de assinar o projeto gráfico, o Katimba que estava ao meu lado, sentenciou que não haveria outra imagem e palavras que representassem melhor sua vida. Esse é o tipo de elogio e reconhecimento que o profissional apaixonado pelo que faz sonha em receber.
Mas não estou aqui para me gabar de meu trabalho, falar bem do livro ou até mesmo da incrível história de vida desse sambista vitorioso que revolucionou o carnaval carioca nos últimos cinqüenta anos. Quem quiser saber dessa parte que compre o livro. Quero falar de sensibilidade, sabedoria e capacidade de amar desse cara que conheci há menos de três meses e com quem descobri e aprendi valores tão relevantes a ponto da emoção me fazer chorar algumas vezes. Se o assunto é relacionamento homem e mulher, amor ou paixão vira até covardia, pois além de falar sempre com propriedade, respeito e carinho sobre o tema, finaliza ilustrando com um ou dois sambas geniais para que a gente entenda bem direitinho.
Conhecer esse ser humano foi mais do que uma benção ou presente de Momo as vésperas de seu reinado, foi uma experiência de vida que levarei comigo para sempre junto com sua amizade.
Um beijo no coração meu Rei.
Eduardo Bittencourt
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Diversidade de idéias
Espero que esta página divulgue pensamentos, certezas e incertezas, revoltas, idéias absurdas ou não. Que seja um fórum democrático onde ninguém se sinta constrangido ao se exprimir. Artes plásticas, música, cinema, vídeo e literatura poderão circular por aqui com a certeza de que serão aplaudidos ou não, mas sempre respeitados. E que o respeito à diversidade seja nossa única regra.
Obrigado.
Eduardo Bittencourt
Obrigado.
Eduardo Bittencourt
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Separação
Não te quero morna
Nem seu amor latente
Te quero latejando, ardente
Têmperas não quero mais
Quero você sol
Quero você plena
Quero você toda
Quero com você bodas
Quero você terna
Eterna como para mim você é
Quero nossa vida inteira e não meia
Quero me vencer
Quero você ao amanhecer
Quero o poder de te amar
Quero não te perder
Nem seu amor latente
Te quero latejando, ardente
Têmperas não quero mais
Quero você sol
Quero você plena
Quero você toda
Quero com você bodas
Quero você terna
Eterna como para mim você é
Quero nossa vida inteira e não meia
Quero me vencer
Quero você ao amanhecer
Quero o poder de te amar
Quero não te perder
E o Zé dando voltas no Caixão.
Hoje o brasileiro preocupa-se mais com a produção e a fantasia para ir a um halooween do que para brincar no carnaval. Não sou ultranacionalista e me sentiria ineficiente se levassem meu discurso para as bandas, quase podres, do anti-colonialismo.
Só agora, na era Obama, resolvi escrever esse texto inspirado em uma festa dos horrores que fui, há 4 anos atrás, logo após os norte-americanos terem reeleito ele, o inominável, aquele que não se pronuncia o nome, ou se preferirem, aquele que não precisaria de nenhuma fantasia para incorporar a besta do apocalipse em qualquer festa de horrores.
Metáforas à parte, é evidente o empobrecimento do nosso carnaval, onde os foliões limitam-se a usar bermuda e camiseta com uma latinha de cerveja na mão como fantasia. Onde estão as colombinas e os pierrôs que mesmo importados do carnaval europeu acabaram aclimatando-se ao calor de nossa festa tropical. Por outro lado, quem não estiver a caráter em uma noite das bruxas, caso não seja barrado na entrada, logo se sentirá tão a vontade quanto um sapo fora do pântano. Muito bem, já que a idéia é se divertir com o humor pra lá de negro de uma festa de terror, deveríamos ao menos fazer uma homenagem ao nosso Zé do Caixão, que soube traduzir para os brasileiros uma cultura do terror nascida na Europa e amplificada para o mundo através de aberrações hollywoodianas. E por que não enriquecer essa mistura com nosso folclore e seus inúmeros personagens sobrenaturais. Seria divertido ver a cara do marido da Mortiça Adams ao flagrar sua mulher pulando com o Saci em algum cantinho do salão ou assistir a um Curupira, com seus pés virados para trás, ironizando o famoso passo do Michael Jackson, esse sim um verdadeiro bicho-papão de criancinhas. Estaríamos, assim, usando nossa criatividade para abrasileirar esta data que, querendo ou não, já faz parte do nosso calendário.
Como disse, não sou ultranacionalista, me definiria como um “planetista” e poderia ser um verdadeiro entusiasta da cultura norte-americana caso eles limitassem seus horrores e atrocidades as suas festas e filmes de faz de conta.
Eduardo Bittencourt
Só agora, na era Obama, resolvi escrever esse texto inspirado em uma festa dos horrores que fui, há 4 anos atrás, logo após os norte-americanos terem reeleito ele, o inominável, aquele que não se pronuncia o nome, ou se preferirem, aquele que não precisaria de nenhuma fantasia para incorporar a besta do apocalipse em qualquer festa de horrores.
Metáforas à parte, é evidente o empobrecimento do nosso carnaval, onde os foliões limitam-se a usar bermuda e camiseta com uma latinha de cerveja na mão como fantasia. Onde estão as colombinas e os pierrôs que mesmo importados do carnaval europeu acabaram aclimatando-se ao calor de nossa festa tropical. Por outro lado, quem não estiver a caráter em uma noite das bruxas, caso não seja barrado na entrada, logo se sentirá tão a vontade quanto um sapo fora do pântano. Muito bem, já que a idéia é se divertir com o humor pra lá de negro de uma festa de terror, deveríamos ao menos fazer uma homenagem ao nosso Zé do Caixão, que soube traduzir para os brasileiros uma cultura do terror nascida na Europa e amplificada para o mundo através de aberrações hollywoodianas. E por que não enriquecer essa mistura com nosso folclore e seus inúmeros personagens sobrenaturais. Seria divertido ver a cara do marido da Mortiça Adams ao flagrar sua mulher pulando com o Saci em algum cantinho do salão ou assistir a um Curupira, com seus pés virados para trás, ironizando o famoso passo do Michael Jackson, esse sim um verdadeiro bicho-papão de criancinhas. Estaríamos, assim, usando nossa criatividade para abrasileirar esta data que, querendo ou não, já faz parte do nosso calendário.
Como disse, não sou ultranacionalista, me definiria como um “planetista” e poderia ser um verdadeiro entusiasta da cultura norte-americana caso eles limitassem seus horrores e atrocidades as suas festas e filmes de faz de conta.
Eduardo Bittencourt
Salvem o meio cultural
Um manifesto pelo direito a diversidade das idéias
Será possível alguém se emocionar mais com a cultura alheia do que com a própria? Será que sou tão limitado a ponto de não me sensibilizar com a letra de uma música em inglês? Ou será que minha compreensão de emoção almeja mais do que entender o que o autor quis dizer. Compreender e se comover com um poema, pressupõe uma vivência da cultura que o inspirou.
O que significa para um irlandês, que não viveu os nossos anos de chumbo, ouvir “Apesar de você” do Chico? Sentirá o mesmo que sinto quando ouço “Sunday bloddy Sunday” do U2 sem ter vivido o terrorismo na Irlanda. Trocando em miúdos, não basta conhecer a língua e a história de um povo para se eleger apto a compreender suas entranhas. Essa compreensão visceral é, e sempre será, exclusiva dos nativos ou daqueles muito bem radicados.
Assim como a diminuição da biodiversidade pode levar a extinção da vida no planeta, a pasteurização cultural pode levar a extinção do indivíduo pensante. A globalização cultural transforma a todos em formigas gigantes servindo a umas poucas rainhas, fazendo, sentindo e aspirando o mesmo que todos ao redor do planeta. Parece delírio, mas é isso que faz a globalização conduzida pelos interesses do dinheiro. Na verdade, algumas empresas ficaram grandes demais para seus mercados internos e resolveram ampliar sua demanda, reduzindo toda humanidade a meros consumidores em potencial. Só que criar e produzir mercadorias respeitando as diferenças culturais diminuiria o lucro. É mais vantajoso fazer todo mundo gostar da mesma coisa e vendê-la aos milhões faturando bilhões. Entra em cena então o “pseudo neoliberalismo”, que através da mídia, ou até de políticas públicas governamentais, vende a globalização como a lâmpada de Aladim que irá construir um mundo melhor e igualitário. Só que ao se esfregar essa lâmpada surge o gênio dos trabalhos infantis na Ásia, do capital especulativo e volátil quebrando países inteiros, e muitas outras façanhas que só atendem aos desejos dos donos da lâmpada.
Será que em um país menos globalizado haveria espaço para uma tv aberta como a do Brasil? No caso da música é nítida a intenção da programação, em parceria com a indústria fonográfica, de transformar um ritmo ou gênero musical na bola da vez, fazendo o país inteiro cantar e comprar a mesma coisa. Nessa onda surgiram a era sertanejo, a era axé, a era “sambabaca”, e por aí vai. Ô loco! É tanto “pancadão” na cabeça que fica difícil não “emburrecer”. Reconheço os expoentes dentro de cada um desses gêneros, no entanto, no vácuo desse arrastão, prolifera um lixo cultural que acaba despejado dentro de nossas casas. Mas como tudo tem seu lado bom, mesmo não podendo ser reciclado, esse dejeto acaba sendo facilmente degradado devido a sua total falta de consistência. Que saudade do “Cassino do Chacrinha” que há mais de trinta anos, em sua irreverência, já sabia da importância da diversidade cultural e escancarava suas janelas para os reais desejos do público. Quantos artistas, hoje imortalizados, começaram ali suas carreiras.
Globalização cultural é burrice e só serve aos interesses de meia dúzia, ou seriam oito? E mesmo esses, que já fazem o planeta pagar pelo descaso com o meio ambiente, em pouco tempo, estarão pagando pelo assassinato da pluralidade cultural. Bem feito para eles e que pena para o mundo que não poderá mais se extasiar com a arte de novos artistas como foram um dia Chiquinha Gonzaga, Vila Lobos, Tom Jobim, Milton Nascimento, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros brasileiros e estrangeiros que fizeram da sua arte a real expressão do seu povo.
Lanço aqui então um movimento contra a extinção da inteligência e pelo real desenvolvimento sustentável da diversidade das genuínas idéias.
Eduardo Lages Bittencourt
Será possível alguém se emocionar mais com a cultura alheia do que com a própria? Será que sou tão limitado a ponto de não me sensibilizar com a letra de uma música em inglês? Ou será que minha compreensão de emoção almeja mais do que entender o que o autor quis dizer. Compreender e se comover com um poema, pressupõe uma vivência da cultura que o inspirou.
O que significa para um irlandês, que não viveu os nossos anos de chumbo, ouvir “Apesar de você” do Chico? Sentirá o mesmo que sinto quando ouço “Sunday bloddy Sunday” do U2 sem ter vivido o terrorismo na Irlanda. Trocando em miúdos, não basta conhecer a língua e a história de um povo para se eleger apto a compreender suas entranhas. Essa compreensão visceral é, e sempre será, exclusiva dos nativos ou daqueles muito bem radicados.
Assim como a diminuição da biodiversidade pode levar a extinção da vida no planeta, a pasteurização cultural pode levar a extinção do indivíduo pensante. A globalização cultural transforma a todos em formigas gigantes servindo a umas poucas rainhas, fazendo, sentindo e aspirando o mesmo que todos ao redor do planeta. Parece delírio, mas é isso que faz a globalização conduzida pelos interesses do dinheiro. Na verdade, algumas empresas ficaram grandes demais para seus mercados internos e resolveram ampliar sua demanda, reduzindo toda humanidade a meros consumidores em potencial. Só que criar e produzir mercadorias respeitando as diferenças culturais diminuiria o lucro. É mais vantajoso fazer todo mundo gostar da mesma coisa e vendê-la aos milhões faturando bilhões. Entra em cena então o “pseudo neoliberalismo”, que através da mídia, ou até de políticas públicas governamentais, vende a globalização como a lâmpada de Aladim que irá construir um mundo melhor e igualitário. Só que ao se esfregar essa lâmpada surge o gênio dos trabalhos infantis na Ásia, do capital especulativo e volátil quebrando países inteiros, e muitas outras façanhas que só atendem aos desejos dos donos da lâmpada.
Será que em um país menos globalizado haveria espaço para uma tv aberta como a do Brasil? No caso da música é nítida a intenção da programação, em parceria com a indústria fonográfica, de transformar um ritmo ou gênero musical na bola da vez, fazendo o país inteiro cantar e comprar a mesma coisa. Nessa onda surgiram a era sertanejo, a era axé, a era “sambabaca”, e por aí vai. Ô loco! É tanto “pancadão” na cabeça que fica difícil não “emburrecer”. Reconheço os expoentes dentro de cada um desses gêneros, no entanto, no vácuo desse arrastão, prolifera um lixo cultural que acaba despejado dentro de nossas casas. Mas como tudo tem seu lado bom, mesmo não podendo ser reciclado, esse dejeto acaba sendo facilmente degradado devido a sua total falta de consistência. Que saudade do “Cassino do Chacrinha” que há mais de trinta anos, em sua irreverência, já sabia da importância da diversidade cultural e escancarava suas janelas para os reais desejos do público. Quantos artistas, hoje imortalizados, começaram ali suas carreiras.
Globalização cultural é burrice e só serve aos interesses de meia dúzia, ou seriam oito? E mesmo esses, que já fazem o planeta pagar pelo descaso com o meio ambiente, em pouco tempo, estarão pagando pelo assassinato da pluralidade cultural. Bem feito para eles e que pena para o mundo que não poderá mais se extasiar com a arte de novos artistas como foram um dia Chiquinha Gonzaga, Vila Lobos, Tom Jobim, Milton Nascimento, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros brasileiros e estrangeiros que fizeram da sua arte a real expressão do seu povo.
Lanço aqui então um movimento contra a extinção da inteligência e pelo real desenvolvimento sustentável da diversidade das genuínas idéias.
Eduardo Lages Bittencourt
A máquina que mata sem remorso e a revolução da violência.
“A vida é assim, uns tem sorte outros não.” “Tem quem nasceu pra mandar e quem nasceu pra ser mandado.” “Não tem jeito, sempre existirá a elite dominante e a classe dos explorados.” “Cada um por si.” “Não importa se eles não tiveram as mesmas oportunidades, se são criminosos têm que pagar na cadeia ou com a vida.” Pérolas como essas servem de combustível à máquina que mata sem remorsos. Mata e condena milhares a uma subvida desgraçada e mesmo assim ninguém que poderia fazer algo fica sem dormir. A não ser quando a violência, produto final desse descaso desumano rompe as blindagens, muros e cercas elétricas e bate à porta de quem se julga, orgulhoso, uma peça produtiva dessa mesma máquina. Discursos utópicos, “caveirões” ou “choques de ordem” não mudarão esse insano inconsciente coletivo ou muito menos farão a violência diminuir.
Chamo de revolução o que chamam de violência. Pessoas abandonadas pelo estado, pelos pais e pela sociedade não são obrigadas a seguir conceitos morais que nunca lhes foram ensinados. O nível de abandono chegou a tal ponto que mesmo a religião, que sempre serviu como anestesia às dores do povo, já não surte efeito. O “ópio do povo” perdeu a vez para o crac e para a cocaína.
A desumana cobiça transformou os explorados em selvagens que só fazem existir e sobreviver. Do jeito que der. Não é pejorativo dizer selvagem, é só a constatação do que é um ser humano sem parâmetros civilizatórios. Ninguém nasce com conceitos morais, esses lhes são ensinados. Acredito em boa e má índole. Está ai nossa classe política, que mesmo tendo família, acesso à boa educação e várias oportunidades preferiu ser inescrupulosa e sanguinária, roubando incansavelmente o dinheiro que deveria ser usado para ensinar os tais parâmetros civilizatórios. Roubam até dinheiro da merenda escolar: “Hahah, é como tirar doce de criancinha”, devem rir-se por dentro. Não vou generalizar, devem existir uns poucos que não fazem parte desse grupo de extermínio.
O assunto não é novidade. Sociólogos, antropólogos, historiadores ou pessoas bem esclarecidas devem estar achando isso tudo uma retórica boba, e um exemplo clássico de que a violência adquire o grau de revolução foi a queda da bastilha, marco da Revolução Francesa. É a mesma historinha: povo abandonado pelo estado se revolta e toma o poder pela força. Sendo assim afirmo que a violência de hoje ganhará status de revolução popular nos livros de história de amanhã. A diferença é que agora a dissimulação é enorme, a corte é mais numerosa e a miséria nem se fala. Então acaba indo para guilhotina quem não deveria. Novamente o inocente paga pelo culpado.
Educação. Palavra mágica. Junto com ela se adquire, além do indispensável conhecimento, a dignidade, a cidadania e os tais conceitos morais. Mas não é qualquer educação. Não essa onde a escola cai na cabeça da criança, o professor recebe salário mínimo e que só serve como estatística ilusória. Devemos exigir escola com qualidade de instalações, bons livros e professores preparados e bem pagos. Escola que efetivamente atinja seus reais propósitos de formação de cidadãos. Há casos raros que comprovam o milagre da educação e mostram que uma boa escola não só muda a vida de uma pessoa, mas também a vida de seus familiares, o convívio social e a comunidade como um todo. Sem “caveirão”, sem balas perdidas e sem violência. Combater a violência é necessário, mas com inteligência e não truculência. E mesmo assim de nada valerá se não forem atacadas suas origens. Serão apenas paliativos para um mal que precisa de cuidados especiais onde só a educação como remédio será eficaz.
Para os que se deram ao trabalho de ler até aqui e continuam achando que isso não passa de palavras ao vento ou de um discurso ultrapassado socialista, esclareço que não tenho ideologia política, não sou de esquerda, centro ou direita. Meu partido é a educação, meu político preferido é aquele que faz pela educação. E por caridade, não espere a violência chegar a sua casa ou família para parar e pensar. Além de ser doloroso, não seria inteligente e nem tão pouco digno.
Educadamente obrigado.
Eduardo Bittencourt
Designer e publicitário
Niterói, 5 de fevereiro de 2009
Chamo de revolução o que chamam de violência. Pessoas abandonadas pelo estado, pelos pais e pela sociedade não são obrigadas a seguir conceitos morais que nunca lhes foram ensinados. O nível de abandono chegou a tal ponto que mesmo a religião, que sempre serviu como anestesia às dores do povo, já não surte efeito. O “ópio do povo” perdeu a vez para o crac e para a cocaína.
A desumana cobiça transformou os explorados em selvagens que só fazem existir e sobreviver. Do jeito que der. Não é pejorativo dizer selvagem, é só a constatação do que é um ser humano sem parâmetros civilizatórios. Ninguém nasce com conceitos morais, esses lhes são ensinados. Acredito em boa e má índole. Está ai nossa classe política, que mesmo tendo família, acesso à boa educação e várias oportunidades preferiu ser inescrupulosa e sanguinária, roubando incansavelmente o dinheiro que deveria ser usado para ensinar os tais parâmetros civilizatórios. Roubam até dinheiro da merenda escolar: “Hahah, é como tirar doce de criancinha”, devem rir-se por dentro. Não vou generalizar, devem existir uns poucos que não fazem parte desse grupo de extermínio.
O assunto não é novidade. Sociólogos, antropólogos, historiadores ou pessoas bem esclarecidas devem estar achando isso tudo uma retórica boba, e um exemplo clássico de que a violência adquire o grau de revolução foi a queda da bastilha, marco da Revolução Francesa. É a mesma historinha: povo abandonado pelo estado se revolta e toma o poder pela força. Sendo assim afirmo que a violência de hoje ganhará status de revolução popular nos livros de história de amanhã. A diferença é que agora a dissimulação é enorme, a corte é mais numerosa e a miséria nem se fala. Então acaba indo para guilhotina quem não deveria. Novamente o inocente paga pelo culpado.
Educação. Palavra mágica. Junto com ela se adquire, além do indispensável conhecimento, a dignidade, a cidadania e os tais conceitos morais. Mas não é qualquer educação. Não essa onde a escola cai na cabeça da criança, o professor recebe salário mínimo e que só serve como estatística ilusória. Devemos exigir escola com qualidade de instalações, bons livros e professores preparados e bem pagos. Escola que efetivamente atinja seus reais propósitos de formação de cidadãos. Há casos raros que comprovam o milagre da educação e mostram que uma boa escola não só muda a vida de uma pessoa, mas também a vida de seus familiares, o convívio social e a comunidade como um todo. Sem “caveirão”, sem balas perdidas e sem violência. Combater a violência é necessário, mas com inteligência e não truculência. E mesmo assim de nada valerá se não forem atacadas suas origens. Serão apenas paliativos para um mal que precisa de cuidados especiais onde só a educação como remédio será eficaz.
Para os que se deram ao trabalho de ler até aqui e continuam achando que isso não passa de palavras ao vento ou de um discurso ultrapassado socialista, esclareço que não tenho ideologia política, não sou de esquerda, centro ou direita. Meu partido é a educação, meu político preferido é aquele que faz pela educação. E por caridade, não espere a violência chegar a sua casa ou família para parar e pensar. Além de ser doloroso, não seria inteligente e nem tão pouco digno.
Educadamente obrigado.
Eduardo Bittencourt
Designer e publicitário
Niterói, 5 de fevereiro de 2009
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