Um manifesto pelo direito a diversidade das idéias
Será possível alguém se emocionar mais com a cultura alheia do que com a própria? Será que sou tão limitado a ponto de não me sensibilizar com a letra de uma música em inglês? Ou será que minha compreensão de emoção almeja mais do que entender o que o autor quis dizer. Compreender e se comover com um poema, pressupõe uma vivência da cultura que o inspirou.
O que significa para um irlandês, que não viveu os nossos anos de chumbo, ouvir “Apesar de você” do Chico? Sentirá o mesmo que sinto quando ouço “Sunday bloddy Sunday” do U2 sem ter vivido o terrorismo na Irlanda. Trocando em miúdos, não basta conhecer a língua e a história de um povo para se eleger apto a compreender suas entranhas. Essa compreensão visceral é, e sempre será, exclusiva dos nativos ou daqueles muito bem radicados.
Assim como a diminuição da biodiversidade pode levar a extinção da vida no planeta, a pasteurização cultural pode levar a extinção do indivíduo pensante. A globalização cultural transforma a todos em formigas gigantes servindo a umas poucas rainhas, fazendo, sentindo e aspirando o mesmo que todos ao redor do planeta. Parece delírio, mas é isso que faz a globalização conduzida pelos interesses do dinheiro. Na verdade, algumas empresas ficaram grandes demais para seus mercados internos e resolveram ampliar sua demanda, reduzindo toda humanidade a meros consumidores em potencial. Só que criar e produzir mercadorias respeitando as diferenças culturais diminuiria o lucro. É mais vantajoso fazer todo mundo gostar da mesma coisa e vendê-la aos milhões faturando bilhões. Entra em cena então o “pseudo neoliberalismo”, que através da mídia, ou até de políticas públicas governamentais, vende a globalização como a lâmpada de Aladim que irá construir um mundo melhor e igualitário. Só que ao se esfregar essa lâmpada surge o gênio dos trabalhos infantis na Ásia, do capital especulativo e volátil quebrando países inteiros, e muitas outras façanhas que só atendem aos desejos dos donos da lâmpada.
Será que em um país menos globalizado haveria espaço para uma tv aberta como a do Brasil? No caso da música é nítida a intenção da programação, em parceria com a indústria fonográfica, de transformar um ritmo ou gênero musical na bola da vez, fazendo o país inteiro cantar e comprar a mesma coisa. Nessa onda surgiram a era sertanejo, a era axé, a era “sambabaca”, e por aí vai. Ô loco! É tanto “pancadão” na cabeça que fica difícil não “emburrecer”. Reconheço os expoentes dentro de cada um desses gêneros, no entanto, no vácuo desse arrastão, prolifera um lixo cultural que acaba despejado dentro de nossas casas. Mas como tudo tem seu lado bom, mesmo não podendo ser reciclado, esse dejeto acaba sendo facilmente degradado devido a sua total falta de consistência. Que saudade do “Cassino do Chacrinha” que há mais de trinta anos, em sua irreverência, já sabia da importância da diversidade cultural e escancarava suas janelas para os reais desejos do público. Quantos artistas, hoje imortalizados, começaram ali suas carreiras.
Globalização cultural é burrice e só serve aos interesses de meia dúzia, ou seriam oito? E mesmo esses, que já fazem o planeta pagar pelo descaso com o meio ambiente, em pouco tempo, estarão pagando pelo assassinato da pluralidade cultural. Bem feito para eles e que pena para o mundo que não poderá mais se extasiar com a arte de novos artistas como foram um dia Chiquinha Gonzaga, Vila Lobos, Tom Jobim, Milton Nascimento, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros brasileiros e estrangeiros que fizeram da sua arte a real expressão do seu povo.
Lanço aqui então um movimento contra a extinção da inteligência e pelo real desenvolvimento sustentável da diversidade das genuínas idéias.
Eduardo Lages Bittencourt
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
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Engraçado... você escreve com facilidade o que eu penso, mas que jamais poderia explicar. Obrigada e parabéns!
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