segunda-feira, 11 de maio de 2009

Um hotel, um beijo e muitos carnavais.

– É esse? É esse? É esse? – a mão que vendava os seus olhos pressionou seu rosto como combinado.
– É!!!!
– Pêra, uva, maçã, salada mista?
– Salada mista!!!

Seus olhos se abriram e lá estava ela, linda e apavorada. Sua primeira paixão. O combinado funcionou. Aliviado, suspirou afastando a ansiedade e o medo de ser enganado pelo cúmplice e rival, metido a esperto, e que não disfarçava o interesse pela mesma menina. O alívio e a felicidade logo fugiram dali cedendo a vez ao pânico do primeiro beijo. Sua veia teatral, que naturalmente o acompanhava, escondeu de todos, e principalmente dela, a sua insegurança. E como um galã de cinema, segurou sua mão que tremia e suava. Estava paralisada, quase que colada à ponta da mesa de pingue-pongue onde sentava. A mesma de tantas tardes e noites descontraídas, onde construíam uma amizade ingênua de crianças de nove ou dez anos. Mas aquilo não era mais um jogo ou brincadeira, e muito menos inocente. Ela não conseguia disfarçar seu medo e a tenaz curiosidade ampliada pelo afeto a impedia de sair correndo dali. Ele chegou mais perto de seu rosto e os olhos arregalados dela foram cedendo e se rendendo ao inevitável. Sentia o cheiro, a respiração. “Selinho” não podia, eram as regras indiscutíveis e aceitas por quem quisesse participar do jogo. Não era brincadeira para criancinha como pique-tá ou pique-esconde. O beijo tinha que ser com a boca aberta e só acabava depois que a contagem até dez, pausadamente marcada pelos demais jogadores, terminasse. Tensão, emoção e desejo além da conta para duas almas tão jovens e inexperientes. Dali não teria volta e agora eram os olhos dele que se entregavam. O hálito e a respiração eram uma sensação tão forte, que mesmo antes das bocas se tocarem faziam correntes elétricas e arrepios percorrem pelo corpo. Uma instintiva passada de língua pelos lábios e o primeiro toque. Muito suave, de levinho mesmo, e a sensação de tocar outra boca, também molhada e essa não ser uma boca qualquer, e sim a boca há muito esperada, transformou a emoção daquele primeiro beijo em um capítulo de sua história.

Eles, apesar de conviverem e se encontrarem por alguns anos durante suas juventudes, e até mesmo terem ficado juntos depois em algum outro carnaval naquele mesmo hotel, nunca chegaram a namorar. Mas isso não importa, o que importa é saber que essa lembrança que permanece viva por mais de 30 anos, nunca se apagará. E ter a certeza de que o primeiro beijo foi verdadeiro e que será, para sempre, lembrado com muito carinho.

Eduardo Bittencourt

Um comentário:

  1. Nossa! To impressionada.. Não sabia que voce escrevia tão bem, pai!
    Eu senti como se estivesse lá.
    Mas é estranho pensar que essa menina não é a minha mãe. hahaha x)

    TE AMO.
    beijo

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