domingo, 1 de março de 2009

Pretas, doces, suculentas e para todos

E o homem com a enxada cavando a terra para que se tornasse verdadeira a tal previsão do que me parecia uma história sem fim, escutou:

– Quantos anos vô?
– De oito a dez anos meu filho. Com muita sorte sete.
– Mais vai demorar muito vô! – Eram mais anos do que a minha existência.
– Ainda bem que já estamos plantando. Assim, só vai demorar o tempo que precisar, nem uma safra a mais e nem uma menos para a primeira floração e depois o prazer de chupar as jabuticabas.

Tais palavras eram sem sentido para aquele homem que só pensava na profundidade certa do buraco, na mistura das três terras mais o adubo para que atingisse o sucesso daquele ano a menos na espera do que para mim era a própria eternidade. Sua única preocupação naquele momento era o seu trabalho. E assim, uma a uma, desenhando um círculo entorno do que anos depois, bem mais de sete ou oito, seria um pequeno lago cheio de tilápias, foram cuidadosamente plantadas as seis jabuticabeiras que formariam, já com o lago e a nova casa construída, o cenário em outro tempo dessa mesma história.

E por toda minha infância, vi meu avô e seus cordatos ajudantes plantarem centenas de árvores, normalmente frutíferas, suas paixões declaradas. Mas nunca se esquecendo das ornamentais sempre bem locadas e organizadas pelo porte, cor e época das floradas. Havia também as odoríferas, é claro. E nem mesmo aquelas que não tinham boa aparência, bons frutos ou bom cheiro, como o assa-peixe, eram deixadas de lado:

– Vô! Para que serve esse mato grande?
– Chama-se assa-peixe. Para nós de nada serve, mas serve de alimento para dezenas de espécies de pássaros que voarão para cá as centenas atraídas por suas sementes lenhosas e ricas em óleos. Parece que eles adoram. De suas flores as abelhas fazem um mel que é muito bom para tosse. E não é mato grande Eduardo, esse tipo de planta se chama arbusto.
– Vô! O assa-peixe – nunca esqueci o nome de nenhuma planta, arbusto ou árvore que me tenha sido apresentado – serve pra alguma coisa sim.
– Serve sim meu neto, tudo serve para alguma coisa.

Ele sempre soube disso, era racional e vaidoso demais para deixar escapar esse parágrafo em sua criação. Não queria dificultar meu aprendizado com tantas informações. Eu era uma criança. Dizia que só se aprende quando pronto para entender, fora isso é decorar e repetir como papagaio. Era também generoso, compreensivo e um educador nato como meu bisavô que viveu para educar como professor e diretor de bons colégios. Voltando ao gênesis, estava sempre pensando em atrair o maior número possível de animais, exceto as formigas e as cobras peçonhentas, pois mesmo sabendo de seus papéis ecológicos, nunca correria o risco de perder alguém amado para uma jararaca. E jamais permitiria que as formigas atrasassem o crescimento de seu pequeno universo em expansão. Afinal aquela era a sua concepção de paraíso, o acaso que criasse o dele com bem entendesse. Era também um cético.

– Maria! Toque o sino. Chame os meninos para o almoço.

Ela sempre chamava cinco ou dez minutos antes, para que cada um pudesse terminar ou ajeitar o que estivesse fazendo antes de ir à mesa. Nunca precisou chamar duas vezes. Minha avó, ao seu modo, era sábia como meu avô. Firme, mas nunca autoritária. Doce sem ser melada, assim como suas compotas de frutas que existiam em abundância nos armários e no aparador da sala de jantar, onde se encontravam todas as delícias que se espera encontrar na casa de uma avó do seu tempo, e as compotas, o ano todo, graças à outra sabedoria.

Sentávamos todos em uma grande mesa que meu pai havia comprado da sogra de meu irmão mais velho, já falecido há época. Ela passava por dificuldades e precisou vendê-la. Comprou afirmando um excelente negócio. Mas todos sabiam que tinha mais haver com o tamanho de seu coração e não com o da necessidade de comprá-la. Bendito coração gigante, pois em sua generosidade fez com que gratidão abençoasse aquela mesa que serviu de base às infinitas refeições felizes com uma união familiar rara. Feijão, arroz, bolinho de aipim da tia Clélia, pernil de porco assado na panela. Era uma comida simples no cardápio, mas com a complexidade dos anos de tradição passada por gerações de uma família amante da boa comida. Não havia quem não enlouquecesse com aquelas preciosidades. Mas eu, naquele dia, não tinha muito apetite, não o de comida quente. Só pensava nelas, pois talvez quinze anos houvessem passado e o milagre do tempo havia se dado. As mudas, que levariam uma eternidade para crescer e oferecer as desejadas frutinhas, ignoraram minha ansiedade e se arvoravam a dez metros de altura. Estavam pretas de jabuticabas maduras, com as cascas bem fininhas. Almocei menos do que seria o meu normal. Esperei que todos terminassem, mas não consegui ficar para a conversa à mesa, que muitas vezes se estendia até hora do jantar, entremeada por histórias, pausadamente desenroladas pela deliciosa voz de minha tia. Pedi licença e fui me entregar a elas.

No chão uma forração de recatadas violetas brancas. Só podíamos aproveitar de sua beleza nos agachando e procurando, a delicada flor, por debaixo da saia de suas folhas redondas. Era uma boa forração, gostava das sombras sob as fruteiras onde a grama não vingava e não atraia as indesejadas formigas e cobras por ser uma espécie exótica. Era fácil subir nas jabuticabeiras, o arquiteto daquele éden na verdade era engenheiro, topógrafo e botânico por paixão. Havia podado os galhos para que fossem confortáveis para subir. Estava onde queria. Bem acomodado em um galho alto, perto das graúdas, já que nos galhos mais baixos só restavam as miúdas que volta e meia eram golpeadas pelas patas de Samanta, uma cadela companheira que também as adorava. Já no fim do banquete e afirmando pela quinta vez para mim mesmo que seriam as dez últimas (frugalidade não fazia parte de meu vocabulário naqueles tempos), pousou na mesma árvore um bando de saíras-sete-cores, elas são lindas, pequenas e como o nome diz, coloridas. E sem o menor pudor participaram da orgia. Estavam ao alcance de minha mão e sem nenhum receio. Comer já não era importante ou qualquer prazer que meus sentidos pudessem decifrar não arranharia a paz e a felicidade plena que me envolvia. Nirvana, iluminação, ou chamem como quiser, só poderia ser se não aquilo, o mais próximo do que minha emoção poderia aguentar. Fosse o acaso, meu avô ou Deus o responsável, também não faria diferença. Sentia, pela primeira vez, fazer parte de um mundo que realmente desejava.

E ali fiquei, por algum tempo, depois delas partirem sem se despedir. Agradeço ao homem com a enxada, aos meus avós, ao tempo e a capacidade que temos de nos emocionar.

Eduardo Bittencourt

4 comentários:

  1. Muito bom, gostei muito da condução, da maneira que passeia no tempo e do alinhavo afetivo entre o narrador e os personagens, e da singela profundidade do desfecho.

    Parabéns, escreva mais. Não conheço seu trabalho como publicitário, mas talvez você seja um escritor que gosta de design e não o contrário.

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  2. Eduardo,
    o seu texto me fez voltar ao passado... Me fez lembrar das suas bochechas coradas quando eu e Rogério fomos levar vc e Marize ao cinema, no dia que eu te conheci...
    Do sítio, Dr Jader e d. Walma, por quem tinha um carinho enorme... e eles também por mim... Me chamavam de neta!
    Do seu pai, amoroso, emotivo... coração deeeeeeeeeeeeeeeste tamanho!!!
    Até da Samantha eu me lembrei!
    Não preciso dizer o quanto me emocionei,né?!
    Beijão!

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  3. Eu não sabia que as jabuticabeiras lá estavam bem antes do lago... e olha que tbm vivi minha infância neste cenário.

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